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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

capitulo II





A grande verdade sobre o suicídio é que é uma covardia de quem o comete para quem fica.
Todos os motivos que levaram a pessoa a suicidar-se não se extinguem com a morte. Eles apenas se transferem para as pessoas que ficaram e se tornam um calvário para todos aqueles parentes que precisarão lutar todos os dias com a pergunta “por que”.
Havia acabado as sobras de madeira com as quais eu fazia os artesanatos e fomos até o pátio da madeireira pegar aquelas sucatas e sobras e pontas de madeiras.
O dia tinha sido bom de vendas e, em agradecimento, pela sucata que recebíamos de graça, deixei alguns baús e artesanatos de presente para os filhos e funcionários da madeireira.
Eram peças bonitas  e muito bem feitas. Eu as fazia com carinho e sem pressa então cuidava bem do acabamento...Eles ficaram encantados com o meu trabalho, ainda mais que eu dissera que os  estava fazendo com a sucata de madeira que eles me doavam..
Eu os agradeci e fomos embora com a Caravan verde carregada... e muito satisfeito porque tinhamos condição de presenteá-los  como agradecimento.
Estranhamente nunca mais conseguimos  pegar mais nenhum pedaço de madeira, por pequeno que fosse.
Eles alegavam que a madeira que sobrava estava sendo vendida para uma Empresa que as usava para queimar em seus fornos.
Sabe, as vezes eu penso que a incapacidade das pessoas  é demonstrada pela maldade que advém de seus olhos gananciosos e invejosos.
Meu trabalho mantinha minha subsistência e da Val e das galinhas, dos cachorros e dos passarinhos...e era proveniente dos restos inservíveis para a madeireira.Mas assim é a vida, uns constroem enquantos outros se ofendem e se sentem diminuídos ou acham que estão sendo enganados então cortam todas as possibilidades do outro crescer, ou pelo menos sobreviver.
Esta infelizmente é a Lei do Mais Forte.
Durante algum tempo ainda conseguimos construir e fabricar os artesanatos porque tínhamos muitas pontas e madeiras.
Então um dia enquanto entravamos com o carro no quintal, por um descuido acabei passando sobre a pata do Mixto, destroçando o pé dele...
Muitas desgraças tem seu lado bom, ou melhor acho que é através das coisas erradas que acontecem que nossos olhos são abertos e nossas qualidades são ressaltadas.
O mixto era um cão elegante, magro esguio de uma cor branca intensa e algumas manchas pretas. Era um individuo especial .
Era muito esperto e ativo e muito brincalhão e fujão também.
No momento do acidente a Valdeci agiu com uma frieza e uma calma impressionante. Pegou o Mixto no colo o levou até perto da casa enquanto ele sofria com a dor de ter o pé descarnado e esmagado pela roda do carro...
-Léo, você fica de olho no Mixto, vou procurar alguma coisa pra curar este ferimento, mas não deixe ele se levantar.
Mas o Mixto não queria ficar quieto. Parecia que ele queria dizer  que estava bem e que não estava me culpando pelo acidente.
Eu sentia as dores dentro de minha consciência, mas ele as sentia na carne. Porém, mesmo assim a dor sendo maior nele, ele parecia não tomar conhecimento da dor e me lambia como se quisesse me acalmar.
Logo a Val volta com um punhado de ervas e como se tivesse agindo impulsionada por alguma coisa sobrenatural ela rasga uma camiseta velha e enrola o unguento na pata machucada.
O curativo estava feito, mas o ferimento era muito feio. E, no meio daquele mato, sem condições e sem medicamentos, eu temia que fosse preciso amputar a perna do Mixto.
Então quando eu ia dizer isto à Val ela me disse suave e calmamente.
-Amanha você me lembra de passar na roça pra pegar mais erva , pois vou curar a pata do Mixto. Ele vai ficar bom...fique tranquilo.
Acho que naquele momento se manifestou na Val o dom da cura...e, até hoje ela fala em estudar Veterinária...
Este é o sonho dela.
Não creio em mágicas ou magias, mas sim em trabalho bem feito e o trabalho foi muito bem feito, pois um mês depois não havia nem sinal da machucadura e nem cicatriz, foi uma obra incrível da Val...
O mixto crescia e com ele os problemas... Não havia passarinho que ficasse sossegado e ele se divertia caçando rolinhas.. As rolinhas são pássaros bestas que quando estão no chaão pastando não prestam atenção em nada e sempre são pegas de surpresa.
Esta era a diversão dele...
Nega Filó havia ensinado o Mohamed a caçar, e agora o Mohamed ficava preso a um fio de arame, porque ele fuigia e para caçar frango dágua  e as vezes esquecia de voltar.
Então para que ele fizesse o papel de guarda tinha que ficar preso no arame que tinha mais ou menos um comprimento de 30.
Saíamos cada dois dias para vender e durante o período que estávamos fora, tínhamos que deixar cada um amarrado em um canto, pois caso contrario quando voltássemos tudo poderia  ser roubado, eis que não existiam trancas nem chaves nas portas da casa.
Quando voltávamos, sempre trazíamos um mimo e um agrado.
Um osso, pão velho, um maço de brócolis, beterraba ou mesmo um repolho era suficiente para que eles se divertissem...
Todos comiamos  frutas à tarde, em baixo da uva japonesa. Tinha alguns pés de mexericas, e a cachorrada ficava sentada em volta e quietinha enquanto descascávamos e dávamos um gomo a cada um...
Era uma terapia incrível.
Animais comendo frutas. Era incrível como eles nos confortavam. Haviam dias que as coisas estavam difíceis e contávamos somente com o que tinha no quintal e na mata para comer.
Nossas galinhas nós não matávamos.
Animais algum nós caçávamos... Não era certo matar um ser da natureza, ainda que fosse para saciar a fome...
Quando era possível e uma vêz por semana passava o  Zé Peixeiro.
Uma vez ele nos deixou peixe estragado e a Val ficou tão braba com ele  e jogou o peixe no chão para perto dos cachorros e, os cachorros cheiraram e não comeram. Dali ela disse para o Zé.
-Agora vou pegar 4 peixes e vou dar um para cada cachorro e se estiver bom eles vão comer...
E assim fez. Cada cachorro comeu o seu peixe e, isto virou uma regra. Toda vez que o peixeiro chegava ele dava uma sardinha para cada cachorro e depois nos comprávamos o nosso peixe.
Uma coisa simples.. uma forma simples de exigir e mostrar que o comerciante precisa respeitar  o consumidor. E, também, que os animais participam de nossas vidas de forma qualitativa também...
Muita água passou e muitas letra também passaram por baixo de minha ponte, mas eu juro, aprendi muito com tudo o que vivi.
Talvez você não entenda quando digo que amo a Val, porque deve achar que é uma forma de propagar palavras apenas, mas no fundo você não sabe o quanto intensamente vivi ao lado desta mulher.

Léo s bella

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