A grande verdade sobre o suicídio é que é uma covardia de
quem o comete para quem fica.
Todos os motivos que levaram a pessoa a suicidar-se não se
extinguem com a morte. Eles apenas se transferem para as pessoas que ficaram e
se tornam um calvário para todos aqueles parentes que precisarão lutar todos os
dias com a pergunta “por que”.
Havia acabado as sobras de madeira com as quais eu fazia os
artesanatos e fomos até o pátio da madeireira pegar aquelas sucatas e sobras e
pontas de madeiras.
O dia tinha sido bom de vendas e, em agradecimento, pela
sucata que recebíamos de graça, deixei alguns baús e artesanatos de presente
para os filhos e funcionários da madeireira.
Eram peças bonitas e
muito bem feitas. Eu as fazia com carinho e sem pressa então cuidava bem do
acabamento...Eles ficaram encantados com o meu trabalho, ainda mais que eu
dissera que os estava fazendo com a
sucata de madeira que eles me doavam..
Eu os agradeci e fomos embora com a Caravan verde
carregada... e muito satisfeito porque tinhamos condição de presenteá-los como agradecimento.
Estranhamente nunca mais conseguimos pegar mais nenhum pedaço de madeira, por
pequeno que fosse.
Eles alegavam que a madeira que sobrava estava sendo vendida
para uma Empresa que as usava para queimar em seus fornos.
Sabe, as vezes eu penso que a incapacidade das pessoas é demonstrada pela maldade que advém de seus
olhos gananciosos e invejosos.
Meu trabalho mantinha minha subsistência e da Val e das
galinhas, dos cachorros e dos passarinhos...e era proveniente dos restos inservíveis
para a madeireira.Mas assim é a vida, uns constroem enquantos outros se ofendem
e se sentem diminuídos ou acham que estão sendo enganados então cortam todas as
possibilidades do outro crescer, ou pelo menos sobreviver.
Esta infelizmente é a Lei do Mais Forte.
Durante algum tempo ainda conseguimos construir e fabricar
os artesanatos porque tínhamos muitas pontas e madeiras.
Então um dia enquanto entravamos com o carro no quintal, por
um descuido acabei passando sobre a pata do Mixto, destroçando o pé dele...
Muitas desgraças tem seu lado bom, ou melhor acho que é através
das coisas erradas que acontecem que nossos olhos são abertos e nossas qualidades
são ressaltadas.
O mixto era um cão elegante, magro esguio de uma cor branca
intensa e algumas manchas pretas. Era um individuo especial .
Era muito esperto e ativo e muito brincalhão e fujão também.
No momento do acidente a Valdeci agiu com uma frieza e uma
calma impressionante. Pegou o Mixto no colo o levou até perto da casa enquanto
ele sofria com a dor de ter o pé descarnado e esmagado pela roda do carro...
-Léo, você fica de olho no Mixto, vou procurar alguma coisa
pra curar este ferimento, mas não deixe ele se levantar.
Mas o Mixto não queria ficar quieto. Parecia que ele queria
dizer que estava bem e que não estava me
culpando pelo acidente.
Eu sentia as dores dentro de minha consciência, mas ele as
sentia na carne. Porém, mesmo assim a dor sendo maior nele, ele parecia não
tomar conhecimento da dor e me lambia como se quisesse me acalmar.
Logo a Val volta com um punhado de ervas e como se tivesse
agindo impulsionada por alguma coisa sobrenatural ela rasga uma camiseta velha
e enrola o unguento na pata machucada.
O curativo estava feito, mas o ferimento era muito feio. E,
no meio daquele mato, sem condições e sem medicamentos, eu temia que fosse
preciso amputar a perna do Mixto.
Então quando eu ia dizer isto à Val ela me disse suave e
calmamente.
-Amanha você me lembra de passar na roça pra pegar mais erva
, pois vou curar a pata do Mixto. Ele vai ficar bom...fique tranquilo.
Acho que naquele momento se manifestou na Val o dom da
cura...e, até hoje ela fala em estudar Veterinária...
Este é o sonho dela.
Não creio em mágicas ou magias, mas sim em trabalho bem
feito e o trabalho foi muito bem feito, pois um mês depois não havia nem sinal
da machucadura e nem cicatriz, foi uma obra incrível da Val...
O mixto crescia e com ele os problemas... Não havia
passarinho que ficasse sossegado e ele se divertia caçando rolinhas.. As
rolinhas são pássaros bestas que quando estão no chaão pastando não prestam
atenção em nada e sempre são pegas de surpresa.
Esta era a diversão dele...
Nega Filó havia ensinado o Mohamed a caçar, e agora o
Mohamed ficava preso a um fio de arame, porque ele fuigia e para caçar frango
dágua e as vezes esquecia de voltar.
Então para que ele fizesse o papel de guarda tinha que ficar
preso no arame que tinha mais ou menos um comprimento de 30.
Saíamos cada dois dias para vender e durante o período que estávamos
fora, tínhamos que deixar cada um amarrado em um canto, pois caso contrario quando
voltássemos tudo poderia ser roubado,
eis que não existiam trancas nem chaves nas portas da casa.
Quando voltávamos, sempre trazíamos um mimo e um agrado.
Um osso, pão velho, um maço de brócolis, beterraba ou mesmo
um repolho era suficiente para que eles se divertissem...
Todos comiamos frutas
à tarde, em baixo da uva japonesa. Tinha alguns pés de mexericas, e a cachorrada
ficava sentada em volta e quietinha enquanto descascávamos e dávamos um gomo a
cada um...
Era uma terapia incrível.
Animais comendo frutas. Era incrível como eles nos
confortavam. Haviam dias que as coisas estavam difíceis e contávamos somente
com o que tinha no quintal e na mata para comer.
Nossas galinhas nós não matávamos.
Animais algum nós caçávamos... Não era certo matar um ser da
natureza, ainda que fosse para saciar a fome...
Quando era possível e uma vêz por semana passava o Zé Peixeiro.
Uma vez ele nos deixou peixe estragado e a Val ficou tão
braba com ele e jogou o peixe no chão
para perto dos cachorros e, os cachorros cheiraram e não comeram. Dali ela
disse para o Zé.
-Agora vou pegar 4 peixes e vou dar um para cada cachorro e
se estiver bom eles vão comer...
E assim fez. Cada cachorro comeu o seu peixe e, isto virou
uma regra. Toda vez que o peixeiro chegava ele dava uma sardinha para cada
cachorro e depois nos comprávamos o nosso peixe.
Uma coisa simples.. uma forma simples de exigir e mostrar
que o comerciante precisa respeitar o
consumidor. E, também, que os animais participam de nossas vidas de forma
qualitativa também...
Muita água passou e muitas letra também passaram por baixo
de minha ponte, mas eu juro, aprendi muito com tudo o que vivi.
Talvez você não entenda quando digo que amo a Val, porque
deve achar que é uma forma de propagar palavras apenas, mas no fundo você não
sabe o quanto intensamente vivi ao lado desta mulher.
Léo s bella
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