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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

capitulo III





Não queira entender mais do que existe nas palavras, porque você pode se enganar imaginando o que nunca existiu, afinal as palavras são frutos de um momento e, no momento seguinte podem encerrar  outro significado.
Eu havia começado falar sobre suicídio e sobre a carga que ele deixa sobre quem ficou...
Até hoje é difícil entender o que aconteceu com o Mixto, até porque ele era especial mesmo, muito ativo, e sempre que chegávamos no fim do dia ele vinha nos encontrar .
Era um falador, e sempre contava tudo o que tinha acontecido durante o dia e, deixava as marcas de suas bagunças por todo canto.
Era uma alegria intensa . Éra um verdadeiro malandro que sabe caminhar entre os desconhecidos  e, maravilhosamente entre os conhecidos.
Em função de suas andanças e dos problemas  que sempre ocorriam tivemos que prende-lo por força de um processo  que uma vizinha havia movido contra os nossos cachorros.
Mas eles não eram bravos, nunca morderam ninguém, apenas queriam latir e fazer a alegria.
Era um espaço muito alegre onde vivíamos. Era um lugar  muito simples.. e a natureza era realmente preservada.
Vez por outra podia-se ver Maria Jaka, uma jararaca velha de aproximadamente 10 anos com seus dois metros de comprimento descansando no terreiro tomando um sol...
É preciso respeitar a natureza para entender como funcionam as relações entre os seres naturais.
Minha amiga Nedua Ferreira lá do Goiás  tem muito medo de cobras.
Eu também tenho, mas elas não fazem nada se ninguém as importunar. Elas somente querem viver tranquila em seus espaços.
A picadura de uma Jararacuçu do campo é mortal, porém  ela não ataca, somente se defende. Acidentes acontecem porém  basta tomar cuidado e ver por onde pisa.
Tínhamos o lagarto Ademar e seus filhotes que caminhavam pelo terreiro, sempre preguiçosos, mas bastava você se aproximar mais do que eles permitiam para eles  saírem correndo... Mas somente corriam quando havia gente estranha em casa.
Também haviam muitos pássaros, mas muito mesmo, era uma cantoria desde o raiar do dia ...
Somente davam uma trégua de alguns minutos por volta de 16,00 horas da tarde. Creio que era a hora em que São Francisco aparecia para conversar com eles, ou então pedia  para se calarem pois ele precisava descansar.
Aquele pedaço era muito protegido por seres naturais e foi lá que fizemos um jardim energético, o Portal... qualquer dia falo sobre ele.
Mas tudo o que é felicidade plena tem seu lado de tristeza também.
Chegamos no fim do dia e encontramos o Mixto enforcado pela própria coleira. Foi muito triste... baixou sobre nossas cabeças alguns dias de pesar e agonia e solidão...
A presença da morte é sentida pela ausência do Ser... e isto foi uma coisa muito forte... até os elementais pareciam sentir a ausência do Mixto; aquele moleque travesso que não tinha nenhum minuto de tristeza.
Nada substitui uma relação de amizade entre um humano e um animal. Nada mesmo...
Mas o que aprendemos com eles fica para a vida inteirinha. Isto é o que significa caminhar para a eternidade. Somente se consegue seguir esta estrada e aprender o que seja cumplicidade e o quanto ela é necessária na vida depois que você consegue conviver com um animal.
Eu havia terminado  de cavar o poço onde seria feito o Portal do Jardim... O sol se escondia no horizonte e  na porta do galinheiro, a Val se aproxima com lágrima nos olhos, me abraça, como se eu precisasse mais daquele abraço do que ela mesmo.
-Gordo, ele se foi...nosso mixto se foi...vai ser tão difícil tudo agora....
Aquele abraço era profundo e tinha muito significado  e tão solidário como as brincadeiras daquele moleque travesso que não tinha parada e vivia correndo o tempo todo.
Naquele abraço, ela chorou o que eu não conseguia chorar...
Nas mãos, a Val trazia algumas flores de abóbora . Era o que seria nosso jantar...
Nunca me revoltei com a vida. 
Muitas vezes me revoltei com os homens e com as pessoas que queriam tripudiar  e transformar minha vida em algo sem  valor.
Pois como as pessoas poderiam querer valorizar minha vida, se quem a vivia era eu?
Muitas vezes as pessoas passando pela rua viam os pés de bananeira e sempre tinham 10 ou doze cachos de banana e eles amadureciam 2 de cada vez...
Um dos cachos nós tirávamos e consumíamos os outros dois, deixávamos nos pés. As bananas iam amadurecendo e os passarinhos faziam a festa.
Um, dia um pessoal da cidade que foram passear,e caminhavam na vizinhança pararam em frente da  chácara. E gritavam La de fora.
-Moço! Moço, você tem que cuidar melhor, tem cacho de banana maduro e os passarinhos estão estragando tudo, nós vamos entrar  e colher.. é um absurdo vocês tem as coisas e não cuidam, por isto são pobres e miseráveis...
Nisto encosta uma camionete destas grandonas  e desce mais quatro pessoas...gritando vamos colher bananas pessoal. Churrasco com banana vai bem...
Eu e a cachorrada chegamos até a cerca e disse :
-Aqui ninguém passa fome... e os passarinhos não estão estragando nada... este é o alimento deles e, se vocês tentarem invadir os cachorros pegam e se os cachorros não conseguirem pegar, meu facão pega e o que meu facão não pegar, minha garrucha pega....
-Nossa moço como você é ignorante, a gente so queria um cacho de banana e ai tem tanto... deixa de ser filho da puta.
-Neste momento eu senti todas as dores da natureza. Senti como se eu não valesse nada e meus pássaros não tivessem direito de se divertirem se alimentando com coisa naturais. Pois era o espaço deles, o invasor era eu e, eu estava apenas preservando o que era deles.
Foi uma sensação incrível, me senti parte da natureza e tive a certeza que os invasores eram eles.
Nisto uma mulher grita, uma cobra... uma cobra... Mata, mata...
 Era a jaracuçu Maria Jaka largada, tomando sol.
-E eu gritei... enquanto gesticulava e armava a cartucheira velha. Corre bando de filho da puta.. corre porque La vai chumbo... Bando de invasores, predadores insensíveis, agora vocês vão morrer.
E o povo saiu correndo e gritando "corram que o home é louco corram".
Em segundos a rua ficou deserta e a paz novamente reinava  na rua...
Sentados em baixo do pé de mexerica, descascávamos e chupavamos  mexerica, nós, e os cachorros, enquanto nos divertíamos com a situação ocorrida horas antes...
Até hoje fico irritado quando vejo alguém falar que os pássaros estão estragando as frutas do pomar...
Isto sim é pobreza...Isto sim é ter uma Alma pobre, mesquinha e que deverá sofrer eternamente por não conseguir se integrar no ambiente em que vive.
Eu aprendi muito apenas observando a natureza. Aprendi a ler e entender os pássaros e os animais...
Nos piores momentos da vida nunca deixamos faltar nada para os bichos... Nem água doce para os beija-flores que se reuniam à nossa volta em 5 grande famílias...por isto acho que não somos sobreviventes, mas somos viventes conscientes de nossas responsabilidades e obrigações

Léo s bella

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