Não queira entender mais do que existe nas palavras, porque você
pode se enganar imaginando o que nunca existiu, afinal as palavras são frutos
de um momento e, no momento seguinte podem encerrar outro significado.
Eu havia começado falar sobre suicídio e sobre a carga que
ele deixa sobre quem ficou...
Até hoje é difícil entender o que aconteceu com o Mixto, até
porque ele era especial mesmo, muito ativo, e sempre que chegávamos no fim do
dia ele vinha nos encontrar .
Era um falador, e sempre contava tudo o que tinha acontecido
durante o dia e, deixava as marcas de suas bagunças por todo canto.
Era uma alegria intensa . Éra um verdadeiro malandro que
sabe caminhar entre os desconhecidos e,
maravilhosamente entre os conhecidos.
Em função de suas andanças e dos problemas que sempre ocorriam tivemos que prende-lo por
força de um processo que uma vizinha havia
movido contra os nossos cachorros.
Mas eles não eram bravos, nunca morderam ninguém, apenas
queriam latir e fazer a alegria.
Era um espaço muito alegre onde vivíamos. Era um lugar muito simples.. e a natureza era realmente
preservada.
Vez por outra podia-se ver Maria Jaka, uma jararaca velha de
aproximadamente 10 anos com seus dois metros de comprimento descansando no
terreiro tomando um sol...
É preciso respeitar a natureza para entender como funcionam
as relações entre os seres naturais.
Minha amiga Nedua Ferreira lá do Goiás tem muito medo de cobras.
Eu também tenho, mas elas não fazem nada se ninguém as importunar.
Elas somente querem viver tranquila em seus espaços.
A picadura de uma Jararacuçu do campo é mortal, porém ela não ataca, somente se defende. Acidentes
acontecem porém basta tomar cuidado e
ver por onde pisa.
Tínhamos o lagarto Ademar e seus filhotes que caminhavam
pelo terreiro, sempre preguiçosos, mas bastava você se aproximar mais do que
eles permitiam para eles saírem correndo...
Mas somente corriam quando havia gente estranha em casa.
Também haviam muitos pássaros, mas muito mesmo, era uma
cantoria desde o raiar do dia ...
Somente davam uma trégua de alguns minutos por volta de
16,00 horas da tarde. Creio que era a hora em que São Francisco aparecia para
conversar com eles, ou então pedia para
se calarem pois ele precisava descansar.
Aquele pedaço era muito protegido por seres naturais e foi
lá que fizemos um jardim energético, o Portal... qualquer dia falo sobre ele.
Mas tudo o que é felicidade plena tem seu lado de tristeza
também.
Chegamos no fim do dia e encontramos o Mixto enforcado pela própria
coleira. Foi muito triste... baixou sobre nossas cabeças alguns dias de pesar e
agonia e solidão...
A presença da morte é sentida pela ausência do Ser... e isto
foi uma coisa muito forte... até os elementais pareciam sentir a ausência do
Mixto; aquele moleque travesso que não tinha nenhum minuto de tristeza.
Nada substitui uma relação de amizade entre um humano e um
animal. Nada mesmo...
Mas o que aprendemos com eles fica para a vida inteirinha.
Isto é o que significa caminhar para a eternidade. Somente se consegue seguir
esta estrada e aprender o que seja cumplicidade e o quanto ela é necessária na
vida depois que você consegue conviver com um animal.
Eu havia terminado de
cavar o poço onde seria feito o Portal do Jardim... O sol se escondia no horizonte
e na porta do galinheiro, a Val se
aproxima com lágrima nos olhos, me abraça, como se eu precisasse mais daquele
abraço do que ela mesmo.
-Gordo, ele se foi...nosso mixto se foi...vai ser tão difícil
tudo agora....
Aquele abraço era profundo e tinha muito significado e tão solidário como as brincadeiras daquele
moleque travesso que não tinha parada e vivia correndo o tempo todo.
Naquele abraço, ela chorou o que eu não conseguia chorar...
Nas mãos, a Val trazia algumas flores de abóbora . Era o que
seria nosso jantar...
Nunca me revoltei com a vida.
Muitas vezes me revoltei com
os homens e com as pessoas que queriam tripudiar e transformar minha vida em algo sem valor.
Pois como as pessoas poderiam querer valorizar minha vida,
se quem a vivia era eu?
Muitas vezes as pessoas passando pela rua viam os pés de
bananeira e sempre tinham 10 ou doze cachos de banana e eles amadureciam 2 de
cada vez...
Um dos cachos nós tirávamos e consumíamos os outros dois, deixávamos
nos pés. As bananas iam amadurecendo e os passarinhos faziam a festa.
Um, dia um pessoal da cidade que foram passear,e caminhavam
na vizinhança pararam em frente da chácara.
E gritavam La de fora.
-Moço! Moço, você tem que cuidar melhor, tem cacho de banana
maduro e os passarinhos estão estragando tudo, nós vamos entrar e colher.. é um absurdo vocês tem as coisas e
não cuidam, por isto são pobres e miseráveis...
Nisto encosta uma camionete destas grandonas e desce mais quatro pessoas...gritando vamos
colher bananas pessoal. Churrasco com banana vai bem...
Eu e a cachorrada chegamos até a cerca e disse :
-Aqui ninguém passa fome... e os passarinhos não estão
estragando nada... este é o alimento deles e, se vocês tentarem invadir os
cachorros pegam e se os cachorros não conseguirem pegar, meu facão pega e o que
meu facão não pegar, minha garrucha pega....
-Nossa moço como você é ignorante, a gente so queria um
cacho de banana e ai tem tanto... deixa de ser filho da puta.
-Neste momento eu senti todas as dores da natureza. Senti
como se eu não valesse nada e meus pássaros não tivessem direito de se
divertirem se alimentando com coisa naturais. Pois era o espaço deles, o invasor
era eu e, eu estava apenas preservando o que era deles.
Foi uma sensação incrível, me senti parte da natureza e tive
a certeza que os invasores eram eles.
Nisto uma mulher grita, uma cobra... uma cobra... Mata,
mata...
Era a jaracuçu Maria
Jaka largada, tomando sol.
-E eu gritei... enquanto gesticulava e armava a cartucheira
velha. Corre bando de filho da puta.. corre porque La vai chumbo... Bando de
invasores, predadores insensíveis, agora vocês vão morrer.
E o povo saiu correndo e gritando "corram que o home é louco
corram".
Em segundos a rua ficou deserta e a paz novamente
reinava na rua...
Sentados em baixo do pé de mexerica, descascávamos e
chupavamos mexerica, nós, e os
cachorros, enquanto nos divertíamos com a situação ocorrida horas antes...
Até hoje fico irritado quando vejo alguém falar que os pássaros
estão estragando as frutas do pomar...
Isto sim é pobreza...Isto sim é ter uma Alma pobre, mesquinha
e que deverá sofrer eternamente por não conseguir se integrar no ambiente em que
vive.
Eu aprendi muito apenas observando a natureza. Aprendi a ler
e entender os pássaros e os animais...
Nos piores momentos da vida nunca deixamos faltar nada para
os bichos... Nem água doce para os beija-flores que se reuniam à nossa volta em
5 grande famílias...por isto acho que não somos sobreviventes, mas somos
viventes conscientes de nossas responsabilidades e obrigações
Léo s bella
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