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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

capitulo I



CAPITULO I

Todas as águas que rolaram por baixo de minha ponte.
Sempre fui um ser diferenciado em minha vida.
Fui alfabetizado muito cedo e, talvez por isto tento entender como as pessoas são em suas individualidades. Pois isto me chamava muito atenção.
Como podem apenas cinco vogais e 21 letras formarem tantas palavras e ideias e permitir a os seres humanos se comunicarem... as vogais são quase iguais no entanto cada uma tem o seu sentido próprio.
Assim, eram os ovos das galinhas, quase idênticos, mas a Val os conhecia e sabia que para a sobrevivência harmônica do galinheiro cada uma tinha o seu. Pode até ser que as galinhas não tenham apego sanguíneo, mas eram muito tranquila quando os ovos eclodiam e mostravam seus verdadeiros pintinhos.
Daqui eu aprendi muita coisa, por exemplo quando o trabalhador produz com seu trabalho a riqueza do Patrão ele, trabalhador,  fica até mais feliz, sabendo que o seu trabalho esta enriquecendo alguém, porém quando não consegue entender a quem esta beneficiando com o seu trabalho, se abate sobre sua cabeça um desanimo capaz de impedir que ele seja produtivo.
Um funcionário Público, por exemplo, em véspera de eleição,  ele não sabe quem esta sendo beneficiado e, rejeita a ideia de que esta trabalhando para o povo, porque ele é funcionário do Governo e, isto para ele faz toda a diferença.
Não é fácil entender estas nuances, mas se você partir do entendimento de uma galinha, você vai perceber que a vida é muito simples, e, nós é que a complicamos.
O dia era tranquilo, era um dia frio e eu havia terminado todo o trabalho de artesanato.
 Havia confeccionado aproximadamente 120 peças em madeira, eram pequeninos Baús, brinco, colares, tabuas de cortar carne, quadros esculpidos  em madeira, oratórios, etc...
O Chevolet caravan verde ano 1976 estava carregado e pronto para sairmos e fazer as vendas.
Precisávamos vender, mas não sabíamos pra quem nem onde e, muito menos por onde começar.
Mas vendedor ambulante é assim mesmo, sabe que vai sair e não sabe como voltará.
A gasolina dava pra seguir viagem, mas não para voltar, então era preciso vender para poder retornar.
Nunca tivemos duvida que voltaríamos, acho que sempre a Fé foi nosso maior vendedor.
Em uma das paradas uma mulher nos encara no portão diz:”pra que se prestam estas coisas , se a vida é tão passageira, quanto nos e logo vamos embora...”
Eu me aproximo e pergunto você esta bem?- seguro nas mãos dela e ela desaba como uma avalanche... E me relata os medos, os credos, as dores, as ausências e toda solidão que sente....
Eu sabia que deveria ouvir e falar e perdemos horas preciosas do dia ouvindo e não vendendo nossos artesanatos.
Finalizando, pego um dos oratórios e mostro à mulher.
Ela diz- Obrigada, minha Nossa Senhora Auxiliadora desatadora dos nós, eu pedi uma casinha pra te colocar e você me respondeu que um anjo a traria pra mim... e isto aconteceu... Ela me abraça e com os olhos cheios de água soluça...
Bom, vender mesmo não vendi, acabei doando aquele oratório, mas mesmo assim fiquei feliz...
Continuamos nossa caminhada e o dia ia passando e as vendas iam como sempre devagar...mas conseguimos abastecer o caro, nos alimentar  e sobrar alguns trocados para comprar milho e ração para as galinhas e os cachorro.
Foi um dia difícil e pelo menos havíamos conseguido chegar ao fim do dia cansados, mas inteiros, porque no dia seguinte  teríamos uma grande surpresa.
Logo cedo, um buzinaço no portão da chácara e a sobrinhada entra correndo cada um trazendo no colo dois cachorrinhos ...
Eram onze, a mãe deles não viera, e imaginem a bagunça.
Os sobrinhos uma escadinha abaixo de 10 anos, os  haviam recolhido, ficaram com dó e fizeram a caridade de tira-los da rua pra me presentear.
Puta presente de grego... Nossa era uma cachorrada que ia fazer toda tranquilidade do lugar se perder no movimento.
“Tio este aqui se chama mixto, porque é misturado, e você pode dar todos, menos este que é metade meu e esta emprestado a você”.
Sabe o que é ser dono da metade de um cachorro e ter que cuidar dele 100% ?
À medida que a cachorrada crescia acabaram ficando uns bichinhos engraçadinhos e até nos acostumávamos com eles e assim foram sendo doados um por um sobrando apenas o “misto”, e os outros que já tínhamos como hospedes.  Eram eles, Nega filo, Mohamed, Paola e o tal de “misto”.
O espaço em que vivíamos parecia mais uma arca de Noé... mas era muito bom conviver com a energia pura dos pássaros, lagartos, galinhas,  e a cachorrada andando atrás de nós durante o dia inteiro.
Bons tempos, são todos os tempos... mas e preciso entender e se integrar no tempo presente para poder sentir que a verdade do que se vive é a lembrança que existira no futuro.
Esta é uma grande lição que aprendi com a vida.


Léo s bella

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